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Penso que todo criar nasce da relação com um espaço. Pode ser uma casa, uma cidade, uma paisagem. Antes de qualquer ideia existir, é preciso que corpo e mente reconheçam aquele lugar como um território possível. Um lugar onde seja possível estar, pertencer e criar.
Nasci em Fortaleza, em 1990. Durante a infância e a adolescência, enquanto sonhava com o American Dream de Hollywood, tive o interior do Ceará como destino recorrente. Do litoral ao sertão, eram essas paisagens que moldavam minhas memórias, ainda que, na época, eu não percebesse.
As viagens aconteciam ao som de Luiz Gonzaga, Flávio José, Amazan e tantos outros, sempre escolhidos pelo meu pai. Nossos passeios iam da praia às vaquejadas. Os finais de semana eram para andar a cavalo, com parada obrigatória na tapioqueira da estrada. Quando seguíamos para o interior, o domingo começava na missa e terminava pela feira ao redor da igreja matriz.
Receber um parente vindo do sertão também era um pequeno acontecimento. Significava a chegada de ovos caipiras, feijão verde, leite fresco, queijo e, com sorte, algum doce caseiro, enviado por alguém próximo da família, como sinal de lembrança e carinho. Hoje reconheço o privilégio dessas memórias. Mas, quando criança, confesso: eu trocaria tudo por um pacote de Cheetos ou qualquer doce industrializado.
É curioso perceber como a identidade se constrói muito antes de nos darmos conta dela.
Aos 17 anos, entrei para o curso de Design de Moda da Universidade Federal do Ceará. Meus primeiros exercícios criativos refletiam exatamente aquele olhar que buscava referências sempre para fora. O que parecia interessante vinha em inglês, tinha sotaque estrangeiro, carregava nomes de designers internacionais. Eu acreditava que era ali que a criatividade acontecia.
Havia tanto para ser visto ao meu redor, mas eu ainda não enxergava. Era como se existisse uma miopia cultural: eu insistia em procurar beleza na distância, sem perceber a potência do lugar onde eu estava.
Foi só alguns anos depois, já com a maturidade que a universidade, o mercado e a própria vida me deram, que meu processo criativo começou a mudar. O Brasil, principalmente o Nordeste, deixou de ser pano de fundo para ocupar o centro da pesquisa. Mas essa transformação não aconteceu apenas porque passei a estudar mais profundamente a cultura brasileira. Ela aconteceu porque comecei a compreender a minha própria história.
Marina Bitu | Estilista e Designer de Moda
Percebi que criar tem menos relação com inventar algo completamente novo e muito mais com reconhecer aquilo que já nos habita. As paisagens da infância, os gestos aprendidos em casa, as conversas de família, as viagens de carro, os sons, os cheiros e os modos de viver passaram a aparecer naturalmente no meu trabalho. Não como nostalgia, mas como matéria-prima.
Hoje entendo que território não é apenas geografia. É memória. É repertório. É pertencimento. Talvez seja por isso que o conceito de Casa, Corpo e Território, que guiou minha collab com a Westwing, faça tanto sentido para mim. Casa não é somente o lugar onde moramos: é onde aprendemos a olhar o mundo. Corpo é o lugar onde todas as experiências ficam registradas. E território não se limita ao mapa: ele continua existindo dentro de nós, mesmo quando estamos do outro lado do oceano.
Depois de quase vinte anos viajando a trabalho e conhecendo cidades, culturas e referências que durante muito tempo habitaram apenas o meu imaginário, percebo que existe uma diferença enorme entre admirar o mundo e precisar pertencer a ele.
Viajar ampliou meu repertório. Mas foi voltar para casa que me ajudou a entender quem eu era.
Hoje reconheço que o Ceará não aparece no meu trabalho apenas pelos materiais, pelas técnicas artesanais ou pelas referências visuais. Ele aparece porque moldou a maneira como observo o mundo, como construo relações e como entendo a beleza.
Talvez criar seja justamente isso: permitir que aquilo que nos formou continue encontrando novas maneiras de existir. No fim, descobri que quanto mais profundamente conheço o meu território, mais universal ele se torna.
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MARINA BITU
… é estilista e diretora criativa de sua marca homônima. Em suas coleções, design autoral, artesanato brasileiro e identidades regionais se encontram para construir uma linguagem contemporânea profundamente conectada à cultura e aos saberes locais.